Quarta-feira, Agosto 30
Hoje
Hoje que minhas olheiras estavam indisfarçáveis eu não queria sair de casa. Cozinhei peixe e matei a saudade, lavei roupas que nem são minhas e recebi amigos.
Hoje que fez muito frio, e os termômetro marcavam oito graus, o consumo de cigarros deve ter aumentado. Os casacos ficaram impregnados.
Ganhei um ditado escrito em papel de pão, ri bastante e aprendi alguma coisa nova. Me acostumei um pouco mais com essa ainda nova forma de vida e nem vi meu hóspede.
Andei de mãos dadas, comprei biscoitos, errei o ônibus e fiquei contente com três palavras.
Até que hoje não foi tão ruim pra quem acortou ao meio-dia e com uma cara péssima.
Quarta-feira, Agosto 23
Me devolva, tá muito frio
Procuro nos cruzamentos, nas calçadas e nos filmes que assisto de madrugada. Às vezes acho que não mais terei de volta. Cada vez mais vezes...
Das filas do supermercado, do banco à xícara.de café. Por todos os cantos.
Nem nas fotos antigas, nas janelas, no elevador.
Procuro nas músicas de Zeca Baleiro, na cidade onde morei, no bolso da jaqueta, nos vagôes do metrô...
Onde está o pedaço de mim que ficou no litoral?
Segunda-feira, Agosto 21
Chandon, Stella Artois, lindas modelos esquálidas e tudo mais
Quem mandou ser fotógrafo? Divirta-se.
Sexta-feira, Agosto 11
Chuveiro Quente
Olha só eu aqui. Sentado no trono desse apartamento esperando que a morte não chegue, espancando os pulmôes.
Mais torto que um bambu, achando que aqui não há ouro, só um tolo. E que não se cansa de quebrar a cara.
Quase adormecido com a água morna que dilata os poros entupidos no fim do dia, reunindo forças para encarar o guarda roupas.
Só querendo jogar conversa fora e rir um pouco. Respirar até o último farelo.