Quarta-feira, Maio 31
Calmaria
Algo faz cócegas dentro de mim e só as paredes descascadas são testemunhas. Algo tão inexplicável que nem cocaína se compara.
É como se outro corpo tomasse o controle, mas não há inquietação, pelo contrário.
Só posso sentir quando me deixo sentir, quando consigo ouvir os zumbidos dos meus pensamentos.
Essa sensação de ter atropelado o tempo, as quatro horas de ontem parecem ter sido mais que o suficiente, contrapondo-se a tudo isso.
É assim que se descobre a alma?
Quarta-feira, Maio 24
Tal perfume
Teu cheiro é bom, doce como os mais femininos dos perfumes.
Devoro entre meus dedos, um êxtase que queima em brasa. Toda uma cena se compõe nas minhas alucinaçôes.
Envolta em lençol de seda esticada, esguia e desejável. Esse perfume adocicado, invasor e irresponsavel, toma conta de mim.
Minha mão que faz força contra teu corpo liso e logo adiante está um abismo desmoronando, onde só eu corro risco.
Tanta sensibilidade que vem a tona, basta te encostar com meus labios.
Quarta-feira, Maio 17
Sonífero, por favor
É a noite, quando se apagam todas as luzes, que eu me desfaço em saudades. É quando choro feito um filhote de cachorro, debaixo do lençol.
Talvez por solidão, ou medo de não saber o que fazer. O que eu preciso é encontrar, nessa loucura toda, um modo de levar pr'a frente.
Quando todos vão dormir e ficam os sotaques ecoando, martelando nos meus ouvidos.
Quarta-feira, Maio 10
A velha novidade
A exta noção que tenho agora me diz que jamais vou conseguir compreender algo.
Todos os fotógrafos, as décadas, o amor, as mulheres, o sexo... sequer eu mesmo. Me sinto incapaz de ter qualquer opnião.
Até mesmo o óbvio, as mais incompreensíveis teorias e técnicas, a luz e sombra.
Tanta explicação me incomoda, me encharca.
Uma pausa e o orgasmo - já disse - explica.
Quarta-feira, Maio 3
E quem acredita em mim?
Inacreditável é a maneira como o peso da responsabilidade se multiplica conforme o tempo que se leva amadurecendo.
Há meia hora era mais leve decidir do que agora. Era menos arriscado responder por si, agora tudo é perigosamente catastrófico.
Do café na esquina ao destino da próxima viagem, o meu risco é escolher e depois suportar o teto.