Sexta-feira, Julho 29
Azulejos Encardidos
Não é de frente a um espelho que eu me olho. Os olhos querem enxergar para dentro.
Na maioria das horas me sinto como um poema parnasiano, apenas uma embalagem bem feita.
Aparento ser inútil como uma canção moskaniana que soa superficial aos ouvidos sujos.
Mas seria necessário inventar uma substância nova a cada cinco minutos para suprir minha carência do desconhecido.
Sábado, Julho 23
Filtro amarelado
Lá na rua congestionada está o que chamam de caos.
Uma ambulância rasga a avenida irritando o resto dos motoristas. Dentro alguém sente dor, é o caos por enquanto.
Aqui na calçada do bar olhando uma lua tímida e cheia de buracos, dando voltas em minhas ansiedades, o caos em pessoa.
Terça-feira, Julho 19
Ensaio sobre a paixão
Qual o motivo de apaixonar-se¿ Há explicação¿
São os trejeitos, o modo de prender os cabelos e a maneira de gargalhar. Eles encantam aos poucos ou brutalmente.
Ninguém se apaixona pelo caráter ou sensatez. A paixão está escondida em detalhes ou às vezes explícita nos defeitos que a gente descarta.
Não tem como pedir permissão do bom senso, é como uma dose anestésica.
Paixão é loucura mesmo, mas alguém em sã consciência apaixonar-se-ia¿
Quarta-feira, Julho 13
Enquanto é cedo
Preciso recuperar o ânimo que não sei se algum dia já tive.
Uma série de planos engavetei nos dez por cento de cérebro que utilizo.
Pautas estão abandonadas há tempos esperando minha boa vontade maquiada de inspiração.
Existem coisas por conquistar, coisas que Raul dizia serem grandes.
Tenho que recuperar a fé, a inocência e a vontade de lutar como se não soubesse que morrerei.
Vou aniquilar o niilista que fiz nascer e assim me iludir sem medida, pelo menos por enquanto.
Sexta-feira, Julho 8
Compressas e comprimidos
Passei mal a noite anterior, quase que subitamente. Fui socorrido a tempo de ainda estar aqui.
Não sei explicar ao certo o que aconteceu, delírios e frases desconexas me tomaram por conta.
Meu corpo quase ebuliu e tudo que eu queria era descansar.
Em nenhum momento vi anjos me chamando, de certo anjos não viriam buscar quem vive à libertinagem.
Ainda enfraquecido só pude ouvir os sermões de reprovações às minhas bebedeiras diárias.
Conclui que nessas situaçõs não cabem conclusões.
Domingo, Julho 3
Pau de arara
O espaço é pequeno e todo mundo quer chegar em casa.
Não restava um lugar vago, sobrou-me olhar em volta daquela lata cheia de gente. Que são sem saber.
Indivíduos, torcedores, cristãos, endividados, consumidores, cidadãos, ninfomaníacos, contribuintes, telespectadores e ouvintes; pessoas que matam borboletas.
Até onde o que eu faço representa em suas vidas¿