Segunda-feira, Junho 23
O Baile
Se um dia chamei maldita a tua dança, hoje ela acalanta ao que chamam alma.
Uma pluma que atravessa o salão, um corte de seda que paira em braços fortes.
Paz que procede a dor do parto.
Quarta-feira, Junho 11
Botânico
Por mais que sejam podadas, por mãos cegas em seus troncos, as plantas resistem. Crescem teimosamente no canto da casa semi-habitada.
Suas cascas, já descascadas, são feridas cobertas ora por mercúrio, ora por óleo queimado.
Machados ceifam, como palavras ríspidas, os braços que tentam tocar o céu de algodão-doce.
Segunda-feira, Fevereiro 11
Fitoterápico
Na noite passada Deus perdeu sua paciência e veio me dar uma peia com galho de peão-roxo.
Sexta-feira, Janeiro 18
Faxina
Tudo que eu gostaria agora é poder ficar em paz com meus pensamentos.
Uma espécie de meditação pra colocar as coisas em odem. Longe de toda essa histeria infantil e lâmpadas fluorescentes.
Preciso lavar a louça da minha moral, arrumar a prateleira da crença.
Não dá pra achar, no meio dessa bagunça, aquele frasco de bom-senso que vai perfumar a sala-de-estar da convivência.
Segunda-feira, Outubro 29
Game Over, Try Again
Essa vida devia ser como um jogo de pinball...
Quinta-feira, Julho 5
Hoje tô me sentindo como um palhaço depois de tirar a maquiagem.
Quarta-feira, Junho 20
Pouca coisa é melhor que a casa dos pais, ainda mais quando é só de férias.
Volto quando puder!
Domingo, Abril 29
REFORMA!
Gente querida, almas penadas que ainda aparecem por aqui. Este local que foi abandonado e agora adquirido por um grande grupo de investidores estrangeiros, vai passar por uma reforma geral. Claro que é mentira, mas nem tudo.
E como reforma de barraco é sempre assim demorada e parece que nunca acaba, não sei quando será isso. Mas é só pra informar que algo novo vem por aí.
Já começamos a tirar as teias de aranha e os ácaros... até breve!
Sexta-feira, Fevereiro 23
Se é por vontade de deus...
Já nem lembro mais o que me fez vir pra cá. Na verdade, acho que quero querer lembrar. É até melhor.
Passou mais rápido do que esperava, minha preocupação agora é como me desfazer dos móveis. O clima de despedida já parece ter cheiro.
Não demora muito e esses dias vão ser só histórias e gargalhadas em mesa de bar.
Sexta-feira, Fevereiro 2
Liquidação
Muitas coisas mudaram em mim, arranjei outras coisas. Mas continuo não me permitindo o sentimento. Se guardar pra quê, pra quem?
Meu mau ainda é começar pelo fim.
Mas talvez enfim tenha ido embora a ilusão de querer ficar contente com um só sorriso.
Terça-feira, Janeiro 9
Vinte e três
Tenho que voltar naquele motel na Lapa, pelo maenos mais uma vez.
Talvez se eu não acreditasse tanto já teria perdido a graça. QUal é a Graça?
Querer voltar pra casa, descer cada vez mais ou ficar perto do mar.
O que eu digo já não faz tanto sentido assim, é uma sucessão de palavras que se espalham por aí, como as imagens roubadas que um dia vão encontrar uma parede.
Como eu, que um dia vou encontrar um peito confortável.
Sábado, Dezembro 30
Atualmente
Tenho tempo demais e assunto de menos.
Domingo, Dezembro 3
Uma semana
Não sei se posso confiar nesses círculos de fumaça formados sobre minha cabeça.
Só sonhos e palavras ditas são ainda muito menos que meras declarações telefônicas.
Os operadores de telemarketing devem ouvi-las o dia inteiro. Quero hálito!
Deve ser alguma dessas coisas de astros, alinhamento planetário, datas muito próximas. Desconheço além da metereologia.
Vai ver é só uma fase rápida de carência, uma passagem de colo.
Quarta-feira, Novembro 15
Espanador
Passada a semana empoeirada, me atenho a um livro novo, novas conclusões.
Talvez inconsciente eu tento evitar usar filtros de efeito e enxergar tudo com a cara lavada de quem acorda desidratado.
Não dá, ontem à noite um vagalume beijou meus lábios na escuridão.
Ainda há quem diga saber qual é o meu problema.
Quinta-feira, Novembro 9
Desabitado
Há dias que eu torço para que o telefone toque e cancele tudo.
Nesses dias o meu edredom é tão confortável como um peito quente. Os ônibus parecem rodar sem motores.
Tem dias que o dia começa lá pelas onze, e poderia ser doze ou treze.
Bem que os expedientes poderiam durar até a última hora do dia, só para a música ecoar nas paredes vazias do décimo terceiro andar.
Tem dias que até a minha coragem é covarde.